AS ORIGENS DA IGREJA ORGÂNICA
Na realidade, pode-se
dizer que a igreja orgânica sempre existiu, desde Pentecostes, e que também
continuará a existir para todo o sempre, pois ela é a expressão da verdadeira
Igreja de Jesus Cristo e as portas do inferno não prevalecerão contra ela, conforme
Jesus Cristo assim o determinou e assim ficou registrado no Evangelho de Mateus
(Mateus 16:18).
Na verdade, o que o criterioso estudo da História da Igreja nos mostra é que, a partir do momento em que o governo da Igreja foi concedido a um homem, decisões começaram a ser tomadas a partir de critérios de julgamento exclusivamente humanos e pessoais, iniciando-se então um progressivo afastamento do modelo original concebido por Cristo.
Muitos daqueles que defendem a existência de um “governo central” da Igreja, ou de uma denominação, se baseiam no texto de 1 Coríntios 12:28, onde Paulo menciona o dom dos “governos”, para justificarem a nomeação de bispos que atuem como “chefes soberanos da Igreja”, com poder suficiente para tomar decisões que, freqüentemente, incluem profundas alterações doutrinárias, seja por exclusão, inclusão ou alteração, muitas vezes sem suficiente respaldo bíblico, sem oração, sem consulta à congregação ou a um conselho de anciãos ou presbíteros enfim.
Realmente o texto de 1 Coríntios 12:28 menciona o comissionamento de governos para as igrejas locais, porém é preciso compreendermos bem o que Paulo está ensinando aqui, pois é da correta compreensão dessas instruções que depende o bom funcionamento da igreja como um organismo espiritual vivo e não como uma empresa ou como uma associação qualquer, coisa que infelizmente vemos hoje em escalas cada vez mais assustadoras.
A habilidade para conduzir a administração de uma congregação, ou igreja local, é verdadeiramente um dom com o qual o Espírito Santo capacita e habilita – a seu critério – algumas pessoas em particular, dentro de uma comunidade, porém dois detalhes são importantes nesse texto: o uso da palavra “governo” no plural e a palavra em grego originalmente usada para expressar “governo” nesse trecho da carta.
Quanto ao uso da palavra no plural, e não no singular, isso deixa bem claro que essa não é uma função a ser exercida por uma única pessoa, que acabe se tornando autoridade máxima local, mas sim a um grupo de pessoas, que satisfaçam a um critério e que sejam capacitadas para tal missão pelo Senhor Santo Espírito. O critério é aquele que Paulo dita a Timóteo em 1 Timóteo 3, onde surge a figura do bispo como alguém que “cuida” da igreja de Deus e que precisa obedecer a todo um conjunto de condições de caráter e de conduta moral. Um pouco mais adiante, na mesma carta em 1 Timóteo 5:17, Paulo mostra que esse “cuidado da igreja de Deus” é delegado a um corpo de anciãos, ou presbíteros, que atuam em conjunto nas tarefas administrativas de uma congregação ou comunidade local da Igreja. Os textos do Novo Testamento, todos escritos originalmente em grego koiné, usam indistintamente as palavras bispo, ancião e presbítero, de forma totalmente intercambiável, conforme menciona, por exemplo, o Dicionário Léxico Thayer Grego-Inglês. Esse “conselho de anciãos” geralmente elegia um representante que falava em nome de todos e que representava aquela comunidade em eventos que reuniam várias outras comunidades, porém as decisões mais importantes sempre eram tomadas em conjunto, como um ato do conselho de anciãos e não como uma decisão pessoal de um único homem. A exemplo disso podemos ler Atos 14:23, Atos 20:17, etc., sendo que, a título de curiosidade, o ancião, ou bispo, representante de uma comunidade, era comumente chamado de “anjo da igreja”, explicando assim o nome dado aos destinatários da cartas às sete igrejas no Livro do Apocalipse.
Quanto à palavra grega originalmente usada para “governo” no texto de 1 Coríntios 12:28, Paulo usou a palavra “kubernésis” da qual se origina a palavra “cibernética”, que se tornou conhecida de todos após o advento dos computadores, e que significa não exatamente um governo no sentido de exercício de poder, ou autocracia, mas sim “controle” no sentido de manter algo em funcionamento, estritamente de acordo com um programa previamente estabelecido por alguém que, no caso da Igreja, é o próprio Jesus Cristo, Ele sim o único governante da Igreja, pois Cristo é a própria cabeça da Igreja, que é Seu Corpo, conforme Paulo mesmo reforça em Efésios 5:23.
A cibernética – originada da “kubernésis” grega – é algo que não se aplica apenas aos computadores, mas a todo e qualquer esforço no sentido de manter-se um sistema em funcionamento, de acordo com um conjunto de instruções, ou “programa”, já definido. A cibernética dos computadores diz que um computador deve executar passo a passo o programa residente em sua memória, exatamente como foi escrito, sem promover qualquer alteração no código fonte. Da mesma forma, na “cibernética da Igreja”, os governos devem manter as congregações, ou comunidades, ou ‘igrejas locais” em funcionamento exatamente de acordo com as regras estabelecidas por Jesus Cristo, isto é a Doutrina de Cristo, sem remover nada, sem incluir nada, sem alterar nada, a tal ponto que Paulo diz aos Gálatas:
“Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema [maldição]”. (Gálatas 1:8)
Entretanto, já no Livro de Atos dos Apóstolos (Atos 15) vemos o poder de governo da Igreja concentrado na figura de um único homem, Tiago, Bispo de Jerusalém, que muito embora orientado pelo conselho de apóstolos e anciãos ali presentes naquela assembléia, a deliberar exclusivamente sobre a questão da circuncisão dos estrangeiros que desejavam tornar-se cristãos, toma uma particular decisão pessoal de remover não apenas essa exigência - o que é correto pois Jesus não mandou circuncidar, mas batizar (Mateus 28:19) – mas sim remover todo um desconhecido conjunto de regras previamente estabelecidas, além de incluir outras (Atos 15:19-20) explicitamente inspiradas na lei mosaica. Ali havia sim a “kubernésis” no sentido de remover algo estranho ao cristianismo, porém entrou em ação também uma autocracia, no sentido de remover e de inserir:
“Depois que eles se calaram, tomou Tiago a palavra e disse...” (Atos 15:13)
Essa configuração de poder autocrático (patriarcado) expandiu-se, a partir de então, em primeiro lugar rumo a Antioquia e depois para outros grandes centros religiosos do cristianismo até que, nos fins do século 4, todas as comunidades da Igreja eram governadas, de acordo com a sua localização, por cinco “patriarcados”, através dos bispos de Jerusalém, Antioquia, Constantinopla, Alexandria e Roma.
Nessa mesma época, por volta de 325 DC, surge a figura do imperador romano Constantino que, após uma conveniente “conversão”, idealiza um modelo de igreja que ele mesmo passou a chamar de “Igreja do Salvador” e convence o então patriarca de Roma, Silvestre I, a aceitar as modificações introduzidas por tal modelo, incluindo a veneração de imagens, em troca do fim da perseguição aos cristãos e da elevação desse “novo modelo” à categoria de religião oficial de Roma, sendo que, entre outras coisas, Silvestre I recebe, como um “sinal de boa vontade” do imperador, um luxuoso palácio doado por Fausta, esposa de Constantino, e que acabou se tornando a primeira “residência papal”. Novamente um significativo volume de práticas e doutrinas estranhas ao Evangelho é introduzido nas igrejas, enquanto outro expressivo volume é removido, por motivações puramente pessoais.
Quando estudamos minuciosamente a História da Igreja, vamos notar que, a cada vez que essas grandes modificações são introduzidas, algumas comunidades resistem corajosamente e, muito embora freqüentemente perseguidas até a morte, preferem perseverar na doutrina de Cristo e então buscam a separação e o isolamento.
Assim foi com os padres do deserto, com os anabatistas e muitos outros grupos de crentes que preferiram afastar-se da “igreja institucional” para manter preservados os princípios doutrinários, morais e éticos da Igreja de Jesus Cristo, como “universal assembléia dos santos” e como “organismo”.
Isso, em sua essência, é a assim chamada “igreja orgânica” mantendo-se santa e preservada das falsas doutrinas e do modelo institucional desde o princípio: sem prédios específicos para uso como templos, sem a figura de um “governante”, sem hierarquias, sem acúmulo de riquezas, sem vínculos com o Estado e com o poder econômico.
Um bonito exemplo de uma das manifestações da igreja orgânica no passado é encontrado quando estudamos uma seita cristã do século XII, conhecida como Valdenses, que era formada pelos seguidores de Pedro Valdo, um rico comerciante de Lyon que se converteu ao Cristianismo por volta de 1174.
Praticamente 400 anos antes da Reforma Protestante, Pedro Valdo resolveu encomendar uma tradução da Bíblia para a linguagem popular e começou a pregá-la ao povo sem ser um sacerdote. Ao mesmo tempo, Valdo renunciou à sua atividade comercial e aos bens advindos dessa atividade, os quais repartiu entre os pobres.
Desde o início, os valdenses afirmavam o direito de cada fiel de ter a Bíblia traduzida em sua própria língua, considerando ser ela a única fonte de toda autoridade eclesiástica e o único repositório de toda a sã doutrina da Igreja de Jesus Cristo.
Eles reuniam-se em casas de famílias ou mesmo em grutas, clandestinamente, devido à forte perseguição da Igreja Católica Romana, já que negavam a supremacia de Roma e rejeitavam o culto às imagens, que consideravam como sendo idolatria.
Os valdenses acabaram sendo expulsos de Lyon e encontraram refúgio nos Alpes, na região italiana do Piemonte.
Mas os Valdenses não pretendiam se separar da igreja Católica, tanto que por mais de trezentos anos continuaram fazendo parte dela, apenas tendo seus próprios costumes. Só com a Reforma Protestante, no início do século XVI, é que eles se identificaram com os ensinamentos de Lutero e de Calvino e aderiram à Reforma, tornando-se uma igreja evangélica.
No século XVII, no contexto das guerras de religião, os Valdenses foram exilados dos Alpes, onde estavam estabelecidos há séculos, e quase chegaram a ser eliminados completamente. Mas sobreviveram às perseguições, voltaram aos Alpes e mantiveram até hoje a fé evangélica. São hoje uma das principais igrejas protestantes na Itália e estão presentes, em menor número, em países como a Argentina, o Uruguai e os Estados Unidos, tendo inspirado – no Brasil – a criação da conhecida Congregação Cristã do Brasil.
E, por falarmos em século XVII, vem à nossa lembrança uma outra importante manifestação da igreja orgânica: o Pietismo. Vamos entender um pouco sobre esse importante conceito surgido logo após a Reforma Protestante de Martinho Lutero.
Há cerca de 400 anos atrás, um pastor chamado Philipp Jakob Spener (1635-1705) começou a preparar uma pregação sobre o Sermão da Montanha, para o culto dominical da sua Igreja Luterana em Frankfurt, na Alemanha. Para tanto, Spener começou a ler o Capítulo 5 do Evangelho de Mateus e, de repente, algo que ele lê o assusta e o conduz a uma profunda reflexão que mudaria para sempre a sua vida.
O que poderia ter causado tamanho impacto ao pastor Spener no texto de Mateus 5?
Na verdade ele havia acabado de ler a inquietante declaração do Senhor Jesus Cristo, logo após o discurso do Sermão, em Mateus 5:20:
"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus".
Essa advertência de Jesus Cristo foi dirigida aos seus próprios discípulos: pessoas que nele criam e que, portanto, já estariam tecnicamente salvos pela regra da simples Justificação pela fé de Romanos 5:1 e Gálatas 2:16. Isso ressoou como um poderoso trovão na mente do pastor Spener e, de repente, ele percebe que, além do Evangelho da Graça, existe ainda o Evangelho do Reino, e se não perseverarmos no desenvolvimento da nossa salvação, através de um esforço concreto de santificação e transformação em novas criaturas, não tomamos posse da herança de filhos de Deus, adquirida através da nossa fé em Cristo, pois voltamos à estaca zero a cada vez que caímos em tentação e cedemos à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e à soberba da vida, descritas pelo apóstolo João (1 Jo 2:16).
Na realidade, a ortodoxia protestante, instaurada por Martinho Lutero, e a ortodoxia reformada de João Calvino, acabaram abolindo quase toda a atividade metódica e prática voltada à santificação na Igreja e, ao se dar conta disso, Spener criou, a partir de 1670, todo um conjunto de atividades voltadas ao desenvolvimento da santificação nos crentes, incluindo reuniões nas casas para estudos bíblicos e oração. Esse método tornou-se conhecido como Pietismo e inspirou, entre outros, ao próprio pastor John Wesley, na criação da Igreja Metodista.
Existe uma distinção entre o Pietismo eclesial e o Pietismo radical.
O Pietismo eclesial se entende como movimento de reformas dentro da igreja institucional constituída e tem por alvo atuar no sentido de uma restauração das práticas do cristianismo primitivo de Atos 2:42-47.
O Pietismo radical, por sua vez, acrescenta ainda uma forte crítica à igreja institucional constituída, na qual enxerga a figura simbolizada através da Meretriz da Babilônia, retratada por João em Apocalipse 17.
Finalmente, uma palavra sobre uma outra comunidade que vale a pena mencionar, conhecida como “Os Irmãos Morávios”, ou simplesmente “Moravianos”.
Os moravianos surgiram, na Alemanha do século 18, como um movimento de 24 horas de oração diária contínua, pela restauração e reavivamento da Igreja, que durou quase um século.
Os moravianos eram muito dedicados ao chamado do Senhor para a ação missionária, o “ide”, sendo que mais de 2150 membros de sua igreja foram enviados às mais remotas regiões do mundo como missionários. A ação missionária moraviana utilizou essencialmente pessoas simples e comuns, de coveiro a lavrador, de sapateiro a oleiro e até mesmo como escravo vendido, sendo que a concepção sobre missões jamais foi a mesma depois disso.
Entre os registros históricos dos moravianos, consta que alguns jovens, todos na faixa dos vinte anos de idade, ouviram falar sobre uma remota ilha, no Leste da Índia, onde trabalhavam cerca de três mil escravos africanos e cujo dono era um agricultor inglês e totalmente ateu. Pois bem, aqueles jovens fizeram contato com o dono da ilha, enviando uma carta na qual perguntavam se poderiam ir para lá como missionários. A resposta do dono da ilha foi imediata: -”Nenhum pregador e nenhum clérigo chegaria à sua ilha para falar sobre essa coisa sem sentido”. Então aqueles rapazes voltaram a orar e fizeram uma nova proposta ao rude ateu: -“E se nós fôssemos à sua ilha, como seus escravos, para sempre?”. Em uma curta resposta o homem disse que aceitaria, porém não pagaria nem mesmo o custo do transporte deles. Então os jovens usaram o valor de sua própria venda para custear sua viagem até o seu destino final, pois ali viriam a morrer todos eles.
No dia da partida para a ilha, as famílias moravianas reuniram-se no porto para se despedirem dos jovens. Houve orações choros e abraços, amigos e familiares puderam dar o último adeus para seus jovens irmãos que partiriam para sempre. Algumas outras pessoas ali presentes, ao saberem do que se tratava exclamavam atônitas: - “Mas, por que vocês estão fazendo isso? Vocês nunca mais irão ver seus familiares e amigos! Serão escravos para o resto de suas vidas”!
Mas então, quando o barco já estava se afastando do porto, dois jovens levantaram suas mãos e gritaram em voz alta: "Para que o Cordeiro, que foi imolado por nós, receba a recompensa por seu sacrifício, através das nossas vidas".
John Wesley foi também influenciado pelos morávios, com os quais conviveu durante uma longa viagem de navio e, assim como no caso do pietismo, incorporou algumas de suas preocupações ao movimento metodista.
A Igreja dos Irmãos Morávios continua ativa hoje (Moravian Church), mas assim como os metodistas, os pietistas, os valdenses e os anabatistas, todos acabaram sendo vencidos pela pressão do sistema religioso e tornaram-se igrejas institucionais, como tantas outras que surgiram e desapareceram nas cinzas do passado.
Como vimos, a História da Igreja é cheia de episódios marcantes, que mostram uma tradição de fidelidade e de compromisso com o Evangelho, que persevera e ressurge sempre, mesmo em circunstâncias muito adversas, onde a nossa própria vida esteja em jogo.
Mas para nós, cristãos que vivemos em plena pós-modernidade do século 21, que relevância poderá ter para nós a separação dos padres do deserto, ou aquilo que Pedro Valdo e seus seguidores começaram na Lyon medieval do século 12, ou ainda o esforço pietista de Jakob Spener e John Wesley?
Na realidade, o que eu quis mostrar aqui com tudo isso, e sinceramente espero ter conseguido, é que todas essas histórias de vidas marcadas pelo compromisso com a verdadeira Igreja de Jesus Cristo podem – e devem – servir de inspiração para todos aqueles que desejam ter um estilo de vida que seja coerente com a esperança que Jesus Cristo depositou em cada um de nós, guardando a palavra da sua perseverança.
Isso é fazer e praticar a igreja orgânica!
Na verdade, o que o criterioso estudo da História da Igreja nos mostra é que, a partir do momento em que o governo da Igreja foi concedido a um homem, decisões começaram a ser tomadas a partir de critérios de julgamento exclusivamente humanos e pessoais, iniciando-se então um progressivo afastamento do modelo original concebido por Cristo.
Muitos daqueles que defendem a existência de um “governo central” da Igreja, ou de uma denominação, se baseiam no texto de 1 Coríntios 12:28, onde Paulo menciona o dom dos “governos”, para justificarem a nomeação de bispos que atuem como “chefes soberanos da Igreja”, com poder suficiente para tomar decisões que, freqüentemente, incluem profundas alterações doutrinárias, seja por exclusão, inclusão ou alteração, muitas vezes sem suficiente respaldo bíblico, sem oração, sem consulta à congregação ou a um conselho de anciãos ou presbíteros enfim.
Realmente o texto de 1 Coríntios 12:28 menciona o comissionamento de governos para as igrejas locais, porém é preciso compreendermos bem o que Paulo está ensinando aqui, pois é da correta compreensão dessas instruções que depende o bom funcionamento da igreja como um organismo espiritual vivo e não como uma empresa ou como uma associação qualquer, coisa que infelizmente vemos hoje em escalas cada vez mais assustadoras.
A habilidade para conduzir a administração de uma congregação, ou igreja local, é verdadeiramente um dom com o qual o Espírito Santo capacita e habilita – a seu critério – algumas pessoas em particular, dentro de uma comunidade, porém dois detalhes são importantes nesse texto: o uso da palavra “governo” no plural e a palavra em grego originalmente usada para expressar “governo” nesse trecho da carta.
Quanto ao uso da palavra no plural, e não no singular, isso deixa bem claro que essa não é uma função a ser exercida por uma única pessoa, que acabe se tornando autoridade máxima local, mas sim a um grupo de pessoas, que satisfaçam a um critério e que sejam capacitadas para tal missão pelo Senhor Santo Espírito. O critério é aquele que Paulo dita a Timóteo em 1 Timóteo 3, onde surge a figura do bispo como alguém que “cuida” da igreja de Deus e que precisa obedecer a todo um conjunto de condições de caráter e de conduta moral. Um pouco mais adiante, na mesma carta em 1 Timóteo 5:17, Paulo mostra que esse “cuidado da igreja de Deus” é delegado a um corpo de anciãos, ou presbíteros, que atuam em conjunto nas tarefas administrativas de uma congregação ou comunidade local da Igreja. Os textos do Novo Testamento, todos escritos originalmente em grego koiné, usam indistintamente as palavras bispo, ancião e presbítero, de forma totalmente intercambiável, conforme menciona, por exemplo, o Dicionário Léxico Thayer Grego-Inglês. Esse “conselho de anciãos” geralmente elegia um representante que falava em nome de todos e que representava aquela comunidade em eventos que reuniam várias outras comunidades, porém as decisões mais importantes sempre eram tomadas em conjunto, como um ato do conselho de anciãos e não como uma decisão pessoal de um único homem. A exemplo disso podemos ler Atos 14:23, Atos 20:17, etc., sendo que, a título de curiosidade, o ancião, ou bispo, representante de uma comunidade, era comumente chamado de “anjo da igreja”, explicando assim o nome dado aos destinatários da cartas às sete igrejas no Livro do Apocalipse.
Quanto à palavra grega originalmente usada para “governo” no texto de 1 Coríntios 12:28, Paulo usou a palavra “kubernésis” da qual se origina a palavra “cibernética”, que se tornou conhecida de todos após o advento dos computadores, e que significa não exatamente um governo no sentido de exercício de poder, ou autocracia, mas sim “controle” no sentido de manter algo em funcionamento, estritamente de acordo com um programa previamente estabelecido por alguém que, no caso da Igreja, é o próprio Jesus Cristo, Ele sim o único governante da Igreja, pois Cristo é a própria cabeça da Igreja, que é Seu Corpo, conforme Paulo mesmo reforça em Efésios 5:23.
A cibernética – originada da “kubernésis” grega – é algo que não se aplica apenas aos computadores, mas a todo e qualquer esforço no sentido de manter-se um sistema em funcionamento, de acordo com um conjunto de instruções, ou “programa”, já definido. A cibernética dos computadores diz que um computador deve executar passo a passo o programa residente em sua memória, exatamente como foi escrito, sem promover qualquer alteração no código fonte. Da mesma forma, na “cibernética da Igreja”, os governos devem manter as congregações, ou comunidades, ou ‘igrejas locais” em funcionamento exatamente de acordo com as regras estabelecidas por Jesus Cristo, isto é a Doutrina de Cristo, sem remover nada, sem incluir nada, sem alterar nada, a tal ponto que Paulo diz aos Gálatas:
“Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema [maldição]”. (Gálatas 1:8)
Entretanto, já no Livro de Atos dos Apóstolos (Atos 15) vemos o poder de governo da Igreja concentrado na figura de um único homem, Tiago, Bispo de Jerusalém, que muito embora orientado pelo conselho de apóstolos e anciãos ali presentes naquela assembléia, a deliberar exclusivamente sobre a questão da circuncisão dos estrangeiros que desejavam tornar-se cristãos, toma uma particular decisão pessoal de remover não apenas essa exigência - o que é correto pois Jesus não mandou circuncidar, mas batizar (Mateus 28:19) – mas sim remover todo um desconhecido conjunto de regras previamente estabelecidas, além de incluir outras (Atos 15:19-20) explicitamente inspiradas na lei mosaica. Ali havia sim a “kubernésis” no sentido de remover algo estranho ao cristianismo, porém entrou em ação também uma autocracia, no sentido de remover e de inserir:
“Depois que eles se calaram, tomou Tiago a palavra e disse...” (Atos 15:13)
Essa configuração de poder autocrático (patriarcado) expandiu-se, a partir de então, em primeiro lugar rumo a Antioquia e depois para outros grandes centros religiosos do cristianismo até que, nos fins do século 4, todas as comunidades da Igreja eram governadas, de acordo com a sua localização, por cinco “patriarcados”, através dos bispos de Jerusalém, Antioquia, Constantinopla, Alexandria e Roma.
Nessa mesma época, por volta de 325 DC, surge a figura do imperador romano Constantino que, após uma conveniente “conversão”, idealiza um modelo de igreja que ele mesmo passou a chamar de “Igreja do Salvador” e convence o então patriarca de Roma, Silvestre I, a aceitar as modificações introduzidas por tal modelo, incluindo a veneração de imagens, em troca do fim da perseguição aos cristãos e da elevação desse “novo modelo” à categoria de religião oficial de Roma, sendo que, entre outras coisas, Silvestre I recebe, como um “sinal de boa vontade” do imperador, um luxuoso palácio doado por Fausta, esposa de Constantino, e que acabou se tornando a primeira “residência papal”. Novamente um significativo volume de práticas e doutrinas estranhas ao Evangelho é introduzido nas igrejas, enquanto outro expressivo volume é removido, por motivações puramente pessoais.
Quando estudamos minuciosamente a História da Igreja, vamos notar que, a cada vez que essas grandes modificações são introduzidas, algumas comunidades resistem corajosamente e, muito embora freqüentemente perseguidas até a morte, preferem perseverar na doutrina de Cristo e então buscam a separação e o isolamento.
Assim foi com os padres do deserto, com os anabatistas e muitos outros grupos de crentes que preferiram afastar-se da “igreja institucional” para manter preservados os princípios doutrinários, morais e éticos da Igreja de Jesus Cristo, como “universal assembléia dos santos” e como “organismo”.
Isso, em sua essência, é a assim chamada “igreja orgânica” mantendo-se santa e preservada das falsas doutrinas e do modelo institucional desde o princípio: sem prédios específicos para uso como templos, sem a figura de um “governante”, sem hierarquias, sem acúmulo de riquezas, sem vínculos com o Estado e com o poder econômico.
Um bonito exemplo de uma das manifestações da igreja orgânica no passado é encontrado quando estudamos uma seita cristã do século XII, conhecida como Valdenses, que era formada pelos seguidores de Pedro Valdo, um rico comerciante de Lyon que se converteu ao Cristianismo por volta de 1174.
Praticamente 400 anos antes da Reforma Protestante, Pedro Valdo resolveu encomendar uma tradução da Bíblia para a linguagem popular e começou a pregá-la ao povo sem ser um sacerdote. Ao mesmo tempo, Valdo renunciou à sua atividade comercial e aos bens advindos dessa atividade, os quais repartiu entre os pobres.
Desde o início, os valdenses afirmavam o direito de cada fiel de ter a Bíblia traduzida em sua própria língua, considerando ser ela a única fonte de toda autoridade eclesiástica e o único repositório de toda a sã doutrina da Igreja de Jesus Cristo.
Eles reuniam-se em casas de famílias ou mesmo em grutas, clandestinamente, devido à forte perseguição da Igreja Católica Romana, já que negavam a supremacia de Roma e rejeitavam o culto às imagens, que consideravam como sendo idolatria.
Os valdenses acabaram sendo expulsos de Lyon e encontraram refúgio nos Alpes, na região italiana do Piemonte.
Mas os Valdenses não pretendiam se separar da igreja Católica, tanto que por mais de trezentos anos continuaram fazendo parte dela, apenas tendo seus próprios costumes. Só com a Reforma Protestante, no início do século XVI, é que eles se identificaram com os ensinamentos de Lutero e de Calvino e aderiram à Reforma, tornando-se uma igreja evangélica.
No século XVII, no contexto das guerras de religião, os Valdenses foram exilados dos Alpes, onde estavam estabelecidos há séculos, e quase chegaram a ser eliminados completamente. Mas sobreviveram às perseguições, voltaram aos Alpes e mantiveram até hoje a fé evangélica. São hoje uma das principais igrejas protestantes na Itália e estão presentes, em menor número, em países como a Argentina, o Uruguai e os Estados Unidos, tendo inspirado – no Brasil – a criação da conhecida Congregação Cristã do Brasil.
E, por falarmos em século XVII, vem à nossa lembrança uma outra importante manifestação da igreja orgânica: o Pietismo. Vamos entender um pouco sobre esse importante conceito surgido logo após a Reforma Protestante de Martinho Lutero.
Há cerca de 400 anos atrás, um pastor chamado Philipp Jakob Spener (1635-1705) começou a preparar uma pregação sobre o Sermão da Montanha, para o culto dominical da sua Igreja Luterana em Frankfurt, na Alemanha. Para tanto, Spener começou a ler o Capítulo 5 do Evangelho de Mateus e, de repente, algo que ele lê o assusta e o conduz a uma profunda reflexão que mudaria para sempre a sua vida.
O que poderia ter causado tamanho impacto ao pastor Spener no texto de Mateus 5?
Na verdade ele havia acabado de ler a inquietante declaração do Senhor Jesus Cristo, logo após o discurso do Sermão, em Mateus 5:20:
"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus".
Essa advertência de Jesus Cristo foi dirigida aos seus próprios discípulos: pessoas que nele criam e que, portanto, já estariam tecnicamente salvos pela regra da simples Justificação pela fé de Romanos 5:1 e Gálatas 2:16. Isso ressoou como um poderoso trovão na mente do pastor Spener e, de repente, ele percebe que, além do Evangelho da Graça, existe ainda o Evangelho do Reino, e se não perseverarmos no desenvolvimento da nossa salvação, através de um esforço concreto de santificação e transformação em novas criaturas, não tomamos posse da herança de filhos de Deus, adquirida através da nossa fé em Cristo, pois voltamos à estaca zero a cada vez que caímos em tentação e cedemos à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e à soberba da vida, descritas pelo apóstolo João (1 Jo 2:16).
Na realidade, a ortodoxia protestante, instaurada por Martinho Lutero, e a ortodoxia reformada de João Calvino, acabaram abolindo quase toda a atividade metódica e prática voltada à santificação na Igreja e, ao se dar conta disso, Spener criou, a partir de 1670, todo um conjunto de atividades voltadas ao desenvolvimento da santificação nos crentes, incluindo reuniões nas casas para estudos bíblicos e oração. Esse método tornou-se conhecido como Pietismo e inspirou, entre outros, ao próprio pastor John Wesley, na criação da Igreja Metodista.
Existe uma distinção entre o Pietismo eclesial e o Pietismo radical.
O Pietismo eclesial se entende como movimento de reformas dentro da igreja institucional constituída e tem por alvo atuar no sentido de uma restauração das práticas do cristianismo primitivo de Atos 2:42-47.
O Pietismo radical, por sua vez, acrescenta ainda uma forte crítica à igreja institucional constituída, na qual enxerga a figura simbolizada através da Meretriz da Babilônia, retratada por João em Apocalipse 17.
Finalmente, uma palavra sobre uma outra comunidade que vale a pena mencionar, conhecida como “Os Irmãos Morávios”, ou simplesmente “Moravianos”.
Os moravianos surgiram, na Alemanha do século 18, como um movimento de 24 horas de oração diária contínua, pela restauração e reavivamento da Igreja, que durou quase um século.
Os moravianos eram muito dedicados ao chamado do Senhor para a ação missionária, o “ide”, sendo que mais de 2150 membros de sua igreja foram enviados às mais remotas regiões do mundo como missionários. A ação missionária moraviana utilizou essencialmente pessoas simples e comuns, de coveiro a lavrador, de sapateiro a oleiro e até mesmo como escravo vendido, sendo que a concepção sobre missões jamais foi a mesma depois disso.
Entre os registros históricos dos moravianos, consta que alguns jovens, todos na faixa dos vinte anos de idade, ouviram falar sobre uma remota ilha, no Leste da Índia, onde trabalhavam cerca de três mil escravos africanos e cujo dono era um agricultor inglês e totalmente ateu. Pois bem, aqueles jovens fizeram contato com o dono da ilha, enviando uma carta na qual perguntavam se poderiam ir para lá como missionários. A resposta do dono da ilha foi imediata: -”Nenhum pregador e nenhum clérigo chegaria à sua ilha para falar sobre essa coisa sem sentido”. Então aqueles rapazes voltaram a orar e fizeram uma nova proposta ao rude ateu: -“E se nós fôssemos à sua ilha, como seus escravos, para sempre?”. Em uma curta resposta o homem disse que aceitaria, porém não pagaria nem mesmo o custo do transporte deles. Então os jovens usaram o valor de sua própria venda para custear sua viagem até o seu destino final, pois ali viriam a morrer todos eles.
No dia da partida para a ilha, as famílias moravianas reuniram-se no porto para se despedirem dos jovens. Houve orações choros e abraços, amigos e familiares puderam dar o último adeus para seus jovens irmãos que partiriam para sempre. Algumas outras pessoas ali presentes, ao saberem do que se tratava exclamavam atônitas: - “Mas, por que vocês estão fazendo isso? Vocês nunca mais irão ver seus familiares e amigos! Serão escravos para o resto de suas vidas”!
Mas então, quando o barco já estava se afastando do porto, dois jovens levantaram suas mãos e gritaram em voz alta: "Para que o Cordeiro, que foi imolado por nós, receba a recompensa por seu sacrifício, através das nossas vidas".
John Wesley foi também influenciado pelos morávios, com os quais conviveu durante uma longa viagem de navio e, assim como no caso do pietismo, incorporou algumas de suas preocupações ao movimento metodista.
A Igreja dos Irmãos Morávios continua ativa hoje (Moravian Church), mas assim como os metodistas, os pietistas, os valdenses e os anabatistas, todos acabaram sendo vencidos pela pressão do sistema religioso e tornaram-se igrejas institucionais, como tantas outras que surgiram e desapareceram nas cinzas do passado.
Como vimos, a História da Igreja é cheia de episódios marcantes, que mostram uma tradição de fidelidade e de compromisso com o Evangelho, que persevera e ressurge sempre, mesmo em circunstâncias muito adversas, onde a nossa própria vida esteja em jogo.
Mas para nós, cristãos que vivemos em plena pós-modernidade do século 21, que relevância poderá ter para nós a separação dos padres do deserto, ou aquilo que Pedro Valdo e seus seguidores começaram na Lyon medieval do século 12, ou ainda o esforço pietista de Jakob Spener e John Wesley?
Na realidade, o que eu quis mostrar aqui com tudo isso, e sinceramente espero ter conseguido, é que todas essas histórias de vidas marcadas pelo compromisso com a verdadeira Igreja de Jesus Cristo podem – e devem – servir de inspiração para todos aqueles que desejam ter um estilo de vida que seja coerente com a esperança que Jesus Cristo depositou em cada um de nós, guardando a palavra da sua perseverança.
Isso é fazer e praticar a igreja orgânica!